A Saúde do Adolescente

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Quanto mais cedo for planejada e iniciada a solução, menores serão as repercussões desfavoráveis sobre os jovens. 

A saúde dos adolescentes é outro dos temas que o mundo enfrentará no terceiro milênio. O ambiente está sofrendo uma mudança global dos valores que afetam diretamente a juventude porque ela é extremamente sensível a todos os fatores que influenciam a sua transformação em indivíduos adultos.

Alterações econômicas e sociais afetam a sua saúde, incluindo a saúde reprodutiva. Os jovens sempre iniciarão e exercerão a sexualidade com todas as ansiedades e riscos associados, incluindo gravidezes indesejadas e infecções sexualmente transmissíveis. Além disso, os jovens de ambos os sexos enfrentarão desemprego, urbanização, migração e mudanças culturais e tecnológicas.

Quanto mais cedo for planejada e iniciada a solução, mesmo parcial desses problemas, menores serão as repercussões desfavoráveis sobre os jovens. Estes são, ao mesmo tempo, uma força de ação e um grupo-alvo. As idéias e iniciativas de como lidar com os próprios problemas são múltiplas e criativas. Os jovens são realistas quanto aos problemas que enfrentam: cedo aprendem a lidar com eles.

Por esse motivo, as suas perspectivas devem ser reconhecidas e valorizadas. Constituindo cerca de 30% da população mundial, a sua participação no planejamento, na implementação e na reavaliação dos problemas que os afetam deve ser bem-vinda.

A sociedade deve aplicar o que aprendeu com os erros cometidos em relação às mulheres e ao desenvolvimento dos povos. Décadas foram perdidas pelo fato de negar poder aos fracos. A sociedade não deve permitir que os mesmos erros sejam cometidos em relação aos jovens.

A adolescência é um estado psicossomático, pois existe uma íntima relação entre os componentes físico e psicológico do corpo. Em vista do impacto das forças sociais sobre a estrutura psicológica, ela pode ser considerada como uma fase psicossocial, sendo um passo essencial no amadurecimento psicológico. Mas, a adolescência é um estado de confusão, que confunde os outros e o próprio adolescente. Os adolescentes sem dúvida retrucarão:… “Se você acha que nós confundimos os outros, o que você acha o que eles fazem em nós?” (Josselyn, 1971).

Muitos sociólogos sustentam que as chamadas características da adolescência – irresponsabilidade, rebeldia contra os pais e a ordem social vigente, busca da identidade, insegurança psicológica e confusão moral – é conceito característico do mundo desenvolvido e constituído de padrões do comportamento que somente foram tornados possíveis através da opulência econômica e da rápida mobilidade social.

Por outro lado, devido a sua extrema pobreza, a maioria dos jovens do mundo em desenvolvimento não podem dar-se ao luxo de passar um período de suas vidas gozando dos recursos e privilégios da idade adulta sem assumir nenhuma de suas responsabilidades.

Nas zonas rurais, os jovens não costumam ter uma verdadeira infância e muito menos uma adolescência. Devem começar a trabalhar muito cedo para que eles e suas famílias possam sobreviver.

Nas zonas urbanas, ao enfrentar os problemas cotidianos da fome, a falta do lar, o desmembramento da família e a violência, os jovens experimentam bem cedo a nua e crua realidade da sobrevivência.

Como se outorga às crianças o cuidado de seus irmãos menores ou a contribuição para a renda familiar, não é fato surpreendente que muitos jovens se considerem adultos feitos e com direitos. É a resposta lógica ao padrão que consiste em impor aos jovens muitas responsabilidades dos adultos. As suas expectativas de matrimônio e paternidade numa idade precoce são comportamentos sancionados pela cultura familiar vigente (Singh e Wulf, s/ data).

 

A adolescência é um período em que o indivíduo mais do que o adulto depende dos outros. No início, o futuro é amorfo. No fim, torna-se responsável por si próprio e sua personalidade assume praticamente o padrão básico segundo o qual viverá a sua vida. Atualmente, esse período cobre uma década ou mais de desenvolvimento biológico, psicológico e social (Sarrel, 1975).

Na maioria das sociedades, a transição da infância para a fase adulta é marcada por vários passos altamente significativos. Os mais óbvios são a saída da escola, a saída do lar paterno, a procura do trabalho, a prestação do serviço militar, o casamento e a constituição da família (Henriques e col., s/ data). Esse é o modelo dos adolescentes da classe trabalhadora da sociedade. Não é a regra na classe alta nem na classe baixa, rural ou das favelas.

No Brasil, os adolescentes que sabidamente atravessam um período crítico do desenvolvimento fisiológico e psicológico devem enfrentar uma carga diferente de seus antecessores. Devem lidar com os problemas universais e previsíveis da idade cronológica, além dos problemas específicos e menos previsíveis do tempo em que vivem. Não apenas experimentam mudanças profundas em suas vidas pessoais, mas também devem lidar com a sociedade em urbanização, industrialização e em pleno processo de criação de novas classes sociais que leva à mobilização social, com melhoria do padrão de vida e maior acesso a bens de consumo.

Esse processo foi planejado e encorajado por políticas de governo que tornaram o crédito de fácil acesso, particularmente para a compra da casa própria e de bens de consumo duráveis(Henriques e col., s/ data). No momento atual, tempo de economia difícil, permanece o hábito que foi criado e tornado irreversível.

Outro aspecto importante do desenvolvimento socio-econômico no Brasil foi a mudança sensível no papel da mulher, que passaram a trabalhar cada vez mais no setor terciário, em escritórios e nas profissões relacionadas à educação e medicina. A fecundidade decresceu à medida que as mulheres sentiram a necessidade de escolher entre o peso da maternidade e o trabalho remunerado fora do lar.

A revolução sexual, que representa o abandono de velhas regras que governavam a conduta sexual entre homens e mulheres, sem que tenham sido substituídas por nenhum código novo de conduta, também veio afetar os adolescentes. A ausência de padrões sexuais apresenta problemas particularmente sérios para os jovens que se encontram no limiar de suas vidas sexuais adultas.

Uma porção significativa da população é agora composta de adolescentes (Tabela 1) e as fronteiras da adolescência se expandem continuamente nas duas direções. A puberdade ocorre mais cedo do que no início do século e, no outro extremo, as forças sociais criadas pela adolescência tanto forçaram o seu ponto final que foi descrito um novo estádio no ciclo vital, a juventude, período compreendido entre 15 e 25 anos de idade, englobando uma parte da adolescência e uma parte da maturidade (Kenniston, 1971).

O desenvolvimento biológico, psicológico e social tornaram o adolescente uma presença significativa nos ambulatórios de ginecologia e obstetrícia. Mas, ao invés de integrar os adolescentes no ambulatório comum e educar os médicos e o pessoal paramédico a cuidá-los, um mito se criou através de programas especiais, segregando essa parcela significativa da população.

Essa postura interfere com a integração do adolescente na população e também com a educação médica continuada, alienando dos adolescentes a maioria dos médicos (Pinto e Silva; Pinotti, 1988). De fato, todo desdobramento da especialidade tem ganhos e perdas. O ganho é a profundidade, a perda é o conhecimento geral. Não há dúvidas que hoje são formados subespecialistas, não somente em questões de adolescência, mas das subespecialidades em geral.

Ao contrário do que se apregoa, a maioria dos adolescentes é basicamente sadia. No máximo o que eles querem é um exame esporádico, a prescrição de contraceptivos e o tratamento de problemas menores. Para atender apropriadamente os adolescentes, os médicos devem desenvolver as seguintes qualidades:

– conhecimento das questões médicas que os adolescentes mais enfrentam;

– capacidade de fazer um exame clínico apropriado, que respeite o mais possível os medos da adolescente;

– ser um ouvinte criativo, sem idéias preconcebidas;

– confidencialidade;

– flexibilidade suficiente para aceitar a necessidade de dedicar mais tempo à adolescente e também de atender ao casal de adolescentes, muitas vezes ainda sem vínculo oficial (Sarrel, 1975).

Essas qualidades também servirão a prática de modo geral, porque felizmente todos os médicos não perdem o adolescente interiorizado – é verdade que alguns mais outros menos, é uma questão de plástica mental – fato que é uma questão de sobrevivência.

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